A intenção da Prefeitura de Taboão da Serra de devolver ao governo federal a responsabilidade pelo trecho urbano da Rodovia Régis Bittencourt recoloca no centro do debate questões estruturais ligadas à mobilidade, à segurança viária e ao pacto federativo. Mais do que um impasse administrativo, o tema envolve escolhas estratégicas que impactam diretamente a vida cotidiana da população e o planejamento urbano do município. Ao longo deste artigo, serão analisados os motivos que sustentam essa proposta, seus efeitos práticos e os desafios políticos e institucionais envolvidos.
A Rodovia Régis Bittencourt é um dos principais eixos de ligação entre São Paulo e a Região Sul do país. Em Taboão da Serra, porém, ela deixa de cumprir apenas a função de corredor logístico e assume características de via urbana, com cruzamentos, tráfego local intenso e convivência direta com áreas residenciais e comerciais. Essa condição híbrida gera um conflito permanente entre a lógica rodoviária e as necessidades urbanas, exigindo investimentos constantes em manutenção, sinalização, segurança e ordenamento do trânsito.
Nos últimos anos, a responsabilidade sobre esse trecho urbano passou a representar um peso significativo para o município. Custos elevados, limitações técnicas e a necessidade de articulação com órgãos estaduais e federais tornam a gestão complexa. A proposta de devolução ao governo federal surge, portanto, como uma tentativa de realinhar atribuições, transferindo a responsabilidade para quem detém maior capacidade financeira e técnica para lidar com uma rodovia de importância nacional.
Sob uma perspectiva prática, a devolução pode trazer vantagens relevantes. O governo federal, por meio de suas estruturas e contratos de concessão, possui maior margem para executar obras de grande porte, implementar soluções de engenharia mais robustas e garantir padrões homogêneos de segurança viária. Para Taboão da Serra, isso significaria aliviar o orçamento municipal e permitir que recursos próprios sejam direcionados a políticas tipicamente urbanas, como saúde, educação e mobilidade local.
No entanto, a discussão não é isenta de riscos. A gestão federal tende a priorizar a fluidez do tráfego de longa distância, enquanto demandas urbanas exigem soluções mais sensíveis ao cotidiano dos moradores, como travessias seguras, redução de velocidade e integração com o transporte público. Existe o receio de que, ao devolver o controle, o município perca poder de decisão sobre intervenções que afetam diretamente o espaço urbano e a qualidade de vida da população.
Esse dilema revela um problema estrutural recorrente em cidades cortadas por rodovias federais. O crescimento urbano avançou sobre infraestruturas originalmente pensadas para outro contexto, criando zonas de conflito permanente. A tentativa de Taboão da Serra de redefinir responsabilidades expõe a necessidade de um modelo de governança mais integrado, capaz de conciliar interesses locais e nacionais sem sobrecarregar administrações municipais.
Do ponto de vista político, a iniciativa também sinaliza uma postura mais ativa do município na defesa de seus limites institucionais. Ao reconhecer que a manutenção do trecho urbano da Régis Bittencourt extrapola sua capacidade operacional, a prefeitura levanta um debate legítimo sobre o equilíbrio federativo. Municípios não podem ser responsabilizados indefinidamente por infraestruturas que servem a fluxos regionais e interestaduais, sob pena de comprometer sua sustentabilidade fiscal.
Editorialmente, a proposta deve ser analisada menos como uma renúncia e mais como uma tentativa de correção de rota. Devolver a responsabilidade não significa abdicar do interesse local, mas buscar um arranjo mais coerente entre atribuições e capacidades. O sucesso dessa estratégia, contudo, dependerá da capacidade de negociação e da construção de garantias para que as especificidades urbanas de Taboão da Serra sejam respeitadas em eventual gestão federal.
Outro ponto relevante é a transparência no processo. A população precisa compreender o que está em jogo, quais mudanças podem ocorrer e como elas afetarão o dia a dia da cidade. Sem esse diálogo, a discussão corre o risco de se reduzir a um embate técnico, distante das reais preocupações dos moradores que convivem diariamente com congestionamentos, acidentes e ruídos.
Em síntese, a intenção de devolver o trecho urbano da Rodovia Régis Bittencourt ao governo federal expõe um debate necessário sobre mobilidade, responsabilidade administrativa e planejamento urbano. Taboão da Serra se encontra diante de uma decisão estratégica que pode redefinir sua relação com uma das principais vias do país. Mais do que escolher quem administra, o desafio está em garantir que a rodovia deixe de ser um problema crônico e passe a integrar, de forma equilibrada, o desenvolvimento urbano e regional.
Autor: Rodion Zaitsev

