Contratar um executivo externo para a gestão de uma empresa familiar nem sempre garante estabilidade. O advogado Rodrigo Pimentel, especialista em questões societárias e de governança, acompanha um dos principais desafios desse processo: estabelecer limites entre as decisões dos sócios e as responsabilidades de quem conduz a operação. Sem essa divisão, conflitos de autoridade podem prejudicar a permanência do gestor e as estratégias.
A família decide profissionalizar a gestão, contrata um CEO de mercado e estabelece metas ambiciosas. Posteriormente, os sócios passaram a delegar funções operacionais diretamente aos gerentes, questionando suas decisões e reavaliando prioridades fora do âmbito das instâncias formais. O executivo precisa responder a múltiplas demandas simultaneamente, e os objetivos que motivaram sua contratação passam a ser inalcançáveis.
Onde termina o papel dos sócios e começa o do CEO?
Os sócios são proprietários e responsáveis por definir a direção estratégica, aprovar orçamentos e eleger administradores para fiscalizar resultados. O CEO executa essa estratégia, conduz a operação, organiza as equipes e toma as decisões do dia a dia dentro dos limites estabelecidos.
Outrossim, o advogado Rodrigo Pimentel pontua que, em empresas familiares, essa fronteira costuma ser apagada pela proximidade. Sócios que conhecem a empresa há décadas, ou que já ocuparam cargos de gestão, tendem a interferir em decisões operacionais por hábito, sem perceber que enfraquecem a autoridade do executivo diante da equipe.
A interferência pode também provir de herdeiros que não atuam no negócio. Na ausência de um canal formal para exercer seus direitos de sócio, os associados buscam informação e influência diretamente junto aos diretores e gerentes. Tal conduta geralmente indica a ausência de uma estrutura de governança apropriada, não se tratando meramente de excesso de controle.
O conselho como mediador entre família e gestão
O conselho administra a relação entre sócios e diretoria. Lá, a estratégia é discutida, as metas do CEO definidas e as preocupações da família chegam à gestão de forma organizada. Com a presença de conselheiros independentes, as decisões ganham critérios técnicos e deixam de depender da opinião individual de cada sócio.
Esse papel é cumprido pelo Conselho quando suas atribuições estão registradas no estatuto ou contrato social. Nesses documentos devem estar definidas as decisões de cada instância, como a eleição do CEO e a forma de acesso dos sócios às informações sobre a empresa.

A visão de Sideni Soncini Pimentel, advogado e desembargador aposentado com mais de quatro décadas de magistratura, contribui para a compreensão da importância dessa formalização. Quando as competências não estão definidas, cada parte interpreta seu próprio papel de maneira mais ampla, e divergências sobre a gestão tendem a se transformar em conflitos societários.
Metas que dependem de regras
Em síntese, a profissionalização da gestão de uma empresa familiar não se resume à contratação de um executivo qualificado. É preciso criar as condições para que ele possa executar suas funções com mandato definido, metas previamente estabelecidas e uma instância de diálogo que filtre as demandas da família. Na ausência de um conjunto de diretrizes, o processo de contratação pode se transformar em uma simples substituição de nomes, enquanto o modelo anterior permanece em operação sob a nova estrutura organizacional.
Já Sideni Soncini Pimentel, que, após a magistratura, passou a atuar na advocacia consultiva e estratégica, reforça que limites definidos antecipadamente protegem tanto a empresa quanto a convivência entre os sócios. Para a família, aceitar esses limites significa substituir o controle direto pela influência organizada, e é essa substituição que permite cobrar resultados de quem foi contratado para entregá-los.
Sobre os especialistas
Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado, empresário e sócio do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Sua atuação envolve questões empresariais, patrimoniais, societárias e sucessórias relacionadas a empresários e famílias empresárias.
Sideni Soncini Pimentel é advogado, desembargador aposentado e integrante do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Após uma trajetória de mais de quatro décadas na magistratura, iniciou uma nova fase profissional na advocacia, com atuação consultiva e estratégica.
