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quinta-feira, novembro 26, 2020
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Da liderança ao colapso: como a indústria petroleira da Venezuela ruiu

O colapso da indústria de petróleo na Venezuela exemplifica que de nada adianta a uma nação possuir riquíssimas reservas naturais sem um sistema político e econômico eficiente, para utilizar esses recursos de forma sustentável e com retorno. A Petróleos de Venezuela (PDVSA), estatal que se dedicava a explorar, transformar, comercializar e transportar petróleo no país, chegou ao ápice de sua decadência. O que melhor ilustra a triste realidade social que hoje assola os venezuelanos é o fato de milhares de ex-funcionários pegarem parte das máquinas sucateadas para vender ferro e outros metais a peso. Entre o óleo que vaza para as praias e os poços que, abandonados, permanecem queimando gases tóxicos, eles vendem os icônicos macacões da extinta PDVSA para conseguir comprar o que comer. Nos postos de gasolina, as filas são imensas, bem como as dificuldades para se conseguir combustível para abastecer os veículos.

De acordo com dados oficiais da estatal, em junho desse ano a PDVSA chegou à sua maior baixa de barris de petróleo produzidos diariamente, 336 mil barris por dia. Apesar de no ano passado o presidente americano, Donald Trump, acirrar as sanções ao governo de Nicolás Maduro, a queda na produção petroleira no país vem de longa data. Em 1998 a PDVSA era uma das maiores empresas mundiais do setor e produzia diariamente 3,1 milhões de barris, mas esse número começou a cair já da década de 2.000 (veja quadro). “A falta de capacidade técnica da empresa durante o governo Chávez, junto com a corrupção administrativa da empresa, são as principais causas do colapso da produção de petróleo e refino venezuelano”, diz William Clavijo, cientista político especialista em comércio exterior e finanças e diretor da Rede de Venezuelanos no Brasil (REDEVEN).

Durante o período de bonança, a empresa conseguia mais de 900 bilhões de dólares em receitas com a exportação do petróleo, mas em meio à corrupção política esse dinheiro não foi reinvestido na capacidade produtiva dessa indústria. O ex-presidente populista Hugo Chávez assumiu a Presidência da Venezuela prometendo uma revolução que diminuiria a vulnerabilidade social dos pobres. Em 1998, logo após as eleições, Chávez assumiu a estatal e extinguiu a sua cultura de meritocracia. Em 2003, demitiu aproximadamente 20 mil funcionários, uma mão de obra capacitada e fundamental para as atividades da empresa. A partir daí, a empresa entrou em uma era de corrupção, com recursos sendo utilizados sem critérios técnicos. De acordo com especialistas, desde a greve em que os trabalhadores da estatal tentaram derrubar Chávez, que se iniciou em 2002, a PDVSA nunca mais voltou a ser mesma.

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Além de ficar cada vez mais obsoleta devido à falta de injeção de dinheiro na companhia, o governo Chávez se endividou no mercado financeiro internacional: especialistas estimam que em 2018 a dívida da PDVSA superava 40 milhões de dólares e que os empréstimos financeiros em troca de óleo superaram os 60 bilhões de dólares em dívidas com o governo chinês. Em 2017 a empresa começou a ter problemas para renegociar suas dívidas e em 2019 ocorreu o embargo americano, prejudicando ainda mais a produção do país. “As sanções norte americanas não são a causa do colapso, mas acabaram contribuindo para que não tivesse uma recuperação melhor. Nem sem as sanções a empresa teria conseguido controlar a queda abrupta de sua produtividade”, diz Clavijo.

Hoje o mercado de petróleo é dominado pelos Estados Unidos, seguido por Rússia e Arábia Saudita. Após sobreviver no limite, tentando levar ferramentas e partes de equipamentos de uma sede a outra, o sistema venezuelano se tornou insustentável e a atividade exploratória acabou. Agora, após a crise da Covid-19, a crise chegou ao fundo do poço. Essa situação é ainda mais lamentável diante do fato que a Venezuela possui a maior reserva petrolífera do mundo, estimada em 303 mil bilhões de barris. Arruinada, no entanto, hoje a indústria tem representação mínima no mercado internacional e sequer consegue influenciar no preço do barril devido à baixa oferta. No ano passado, por exemplo, dos 10 milhões de barris diários de petróleo comprados pela China, maior importadora mundial, apenas 300 mil pertenciam à Venezuela.

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