Os indicativos do início da recuperação econômica permitiriam ao Banco Central (BC) manter a Selic em 2,25%, afirma o economista e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luiz Carlos Mendonça de Barros. Nesta quarta-feira, 5, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou a redução da taxa de juros para 2%, a mais baixa da história. Este foi o nono corte seguido da Selic desde julho do ano passado, quando a taxa estava em 6%. “Os juros já estão em um patamar recuado para o tipo de recessão que estamos vivendo. A produção industrial deu um belo aumento no último mês, e todos os indicadores econômicos mostram que daqui a dois ou três meses as atividades voltarão ao que era antes. Eu não mexeria mais. Aliás, já teria parado até pouco antes”, disse o ex-presidente do BNDES.

O economista afirma que a economia brasileira já está reagindo aos estímulos feitos ao longo dos últimos meses para conter a crise do novo coronavírus, e que a decisão de rebaixar ainda mais a taxa de juros faz parte de uma estratégia de política monetária do BC  de metas de inflação, que geralmente é usada em “tempos normais”. “Nós estamos vivendo uma recessão muito forte, mas que já está normalizando. Corremos o risco de reduzir demais os juros, e pouco mais à frente, quando houver a normalização da inflação, ficar com a sensação que os juros estão muito baixos”, afirma. Segundo Mendonça de Barros, os juros baixos favorecem a especulação cambial, e passam a impressão aos investidores internacionais de que o mercado brasileiro é instável. “Essa volatilidade da taxa de câmbio chega aos ouvidos dos agentes econômicos no exterior como se fosse uma bagunça terrível no Brasil, e não é o caso. As exportações de julho bateram recorde com mais de US$ 8 bilhões no saldo comercial”.

A redução para o nível histórico não terá impacto nos esforços para a volta dos indicativos econômicos aos níveis pré-crise, segundo o economista. Para isso, o ex-presidente do BNDES defende a manutenção dos gastos públicos com os programas de estímulo e proteção dos mais vulneráveis, como o auxílio emergencial de R$ 600. “Não se reverte a crise com juros, mas com gasto fiscal. E está todo mundo fazendo isso, não existe outro protocolo. Vai aumentar a dívida? Vai, mas lá para a frente a gente trata disso. Se não fizer isso hoje, haverá um colapso social e econômico”, afirma. Apesar de concordar com a gestão da crise pela equipe econômica, Mendonça de Barros afirma que o Ministério da Economia deve recuperar os debates de pautas discutidas antes do agravamento da crise da Covid-19. “É preciso retomar a agenda de reformas e privatização. O governo tem uma dívida muito grande, e tem em mãos ativos que não fazem mais sentido”, afirma.